segunda-feira, 7 de julho de 2008

Albert Schweitzer e a Ética

por Adriana Costa Tourinho

Tornar-se um homem ético quer dizer:
começar a pensar sinceramente
.


Albert Schweitzer publicou, em 1923, uma obra intitulada Cultura e Ética (em alemão, Kultur und Ethik), na qual ensaiou sobre a tragédia da concepção ocidental do mundo. Na tentativa de abstrair do pensamento ocidental a sua concepção do mundo, obteve como resposta uma falta de cultura, em face de uma carência de afirmativa do mundo e da vida.

A concepção ética do mundo surge em meio às tentativas religiosas de fundamentar uma moral e afirmar ou negar a concepção do mundo e da vida, sendo assim otimista-ética ou pessimista-ética. A concepção otimista-ética terá reflexos na Filosofia ocidental elevando-a a categoria de convicção. Contudo, contribuir para a consciência ética, independe se a fonte é ou não religiosa. A contribuição para a consciência ética da sociedade e dos indivíduos é considerada válida pelo autor: toda a meditação devotada à Ética tem por conseqüência um aumento e um estímulo da mentalidade ética.

A força persuasiva de um pensamento ético é que vai determinar a duração do mesmo em meio à Humanidade. O problema ético encontra-se no princípio básico da Moral, fundado no pensamento, uma vez que este é ignorado. Devem-se buscar os argumentos que fundamentaram a Ética, no decorrer da História, a fim de encontrarmos na Moral, a sabedoria decisiva que devemos conquistar na luta com o pensamento.

Schweitzer, ao falar da crise da cultura e a sua causa espiritual, remete-nos a uma introspecção sobre nossos valores, os quais estão mais embasados no aspecto material do que espiritual. Eventuais acréscimos ou diminuições do conjunto de conquistas materiais não são decisivos para a cultura, cujo destino depende do domínio que os espíritos mantenham em face dos fatos; os progressos da ciência e da técnica dificultam a existência de uma concepção de ideais culturais puros. Na vida moderna, tornamo-nos criaturas dependentes de um sistema que nos impede de fazer cultura.

O genuíno princípio básico da ética deve ter caráter geral e contudo ser imensamente elementar e íntimo. Deve cativar a quem o reconhecer. Deve influir, inevitàvelmente, sobre todos os seus projetos, sem nunca se deixar relegar a um segundo plano. Não deve cessar em nenhum instante de provocar no homem uma discussão com a realidade [1].

O autor, em questão, teve obras publicadas nas áreas da teologia, religião, filosofia e história da Música. Foi por vezes premiado - prêmio Goethe, da cidade Frankfurt (1928), e o Nobel da Paz (1952) - ratificado o seu trabalho em prol da humanidade e da paz, e pelo respeito à vida (inclusive dos animais não-humanos) [2].

(...)
O Homem não será realmente ético, senão quando cumprir com a obrigação de ajudar tôda vida à qual possa acudir, e quando evitar de causar prejuízo a nenhuma criatura viva. Não perguntará então por que razão esta ou aquela vida merecerá a sua simpatia, como sendo valiosa, nem tampouco lhe interessará saber se, e a que ponto, ela fôr ainda suscetível de sensações. A vida como tal lhe será sagrada. Ele não arrancará fôlhas de árvores; não cortará flores; cuidará em não pisar em nenhum bicho. Nas noites de verão, ao trabalhar à luz da lâmpada, preferirá manter as janelas fechadas e respirar um ar viciado, a ver inseto após inseto cair na mesa com as asas queimadas.

Quando, depois da chuva, sair para a rua e enxergar uma minhoca desviada, lembrar-se-á de que ela se definhará ao calor do sol, se não regressar em tempo à terra fôfa na qual se possa esconder, e logo a retirará das pedras mortíferas, para levá-la ao gramado. Quando passar por um inseto caído numa poça de água, sacrificará o tempo necessário para estender-lhe uma fôlha ou uma haste salvadora.

Não receará que alguém zombe do seu sentimentalismo. É o destino de tôda verdade ser um objeto de escárnios, antes de encontrar reconhecimento. Outrora se considerava tolice a convicção de que os homens de côr eram realmente homens e deviam ser tratados humanamente. Essa tolice converteu-se em verdade. Hoje se julga exagerada a opinião segundo a qual a constante reverência a todos os sêres vivos, até às ínfimas manifestações de vida, representada uma reivindicação de uma Ética racional. E no entanto há de vir uma época em que nos pasmemos diante do fato de ter a Humanidade necessitado de tanto tempo para perceber que a destruição impensada de vidas é incompatível com a Ética.

A Ética é a responsabilidade infinitamente ampliada, por tudo quanto vive [3]
(...)

Albert Schweitzer está entre os meus autores preferidos no tema ética e, certamente, a leitura do seu livro requer uma releitura diária. ...À tentativa de pensar uma nova ética, englobando os animais não-humanos!

[1] SCHWEITZER, Albert. Cultura e Ética, tradução de Herbert Caro, p.47, Edições Melhoramentos, São Paulo - SP.
[2]
Nobelprize.org- Schweitzer´s biography.
[3] SCHWEITZER, Albert. Cultura e Ética, tradução de Herbert Caro, p.256-257, Edições Melhoramentos, São Paulo - SP.

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