segunda-feira, 7 de julho de 2008

Nada novo sob o sol

por Adriana Costa Tourinho


Todo dia acordava com a sensação de que nada de novo iria acontecer. As mesmas coisas sempre aconteciam como o cantar do galo que morava no terreno ao lado. Associei o seu cantar à minha ida ao banheiro, não fosse isso estaria com os olhos arregalados olhando para o teto, às 4hs da manhã. Queria que as coisas tomassem um novo rumo, mas as coisas pareciam não querer mudar.

Eu também dava pouco ritmo a qualquer possibilidade de mudança. Acordava sempre com aquela sensação de cansaço, de ressaca de um dia igual ao que estava por vir. Nada me interessava muito, a rotina de fato me estressa. O novo também, já que sou bastante tímido e receoso. Gostava de passear pelos canais de televisão e ver um pouco de tudo, ao mesmo tempo. O rádio, eu ouvia quando estava no trânsito, principalmente aqueles que têm entrevista e noticiário, e acabava sempre falando sozinho, como se estivesse participando do programa. De qualquer jeito, antes isso do que ficar conversando com gente, já que há muito ruído na comunicação, muita falta de cultura, muita inveja nos olhares, muito interesse em sabe-se lá o quê e para quê.

Interessava-me mesmo em observar os outros. Nada melhor do que curtir a mediocridade alheia. Eu não compartilhava disso porque não me permitia isso. Desde cedo, formei minha opinião sobre a vida e, principalmente, sobre o ser humano. Ser humano é quase impossível, mais fácil é ser um canalha. Tem gente que é phd nisso. Eu poderia o ser, mas prefiro viver nas sombras, observando e rindo o ridículo alheio. Como se gabam de serem nada, de terem nada. Digo nada porque de fato nada são, a não ser projeções de uma mente irrequieta. Não têm nada, pois o que possuem, materialmente falando, traduz-se em lixo mal utilizado em vida e não aproveitado pelo dono depois que morre. Junto a isso tudo, ou a esse mundo vazio, vêm os discursos inflamados, que de nada servem também.

Gosto do jeito do galo de ser porque ele vive a rotina dele, aparentemente, com prazer. Comanda o galinheiro, é cheio de galinhas e filhos ao seu redor, e não perde um segundo na hora de esbravejar ao nascer do sol! Enquanto isso, eu, ao ouvi-lo pela 1ª vez, disse em alto e bom tom: galo fdp e tive que, nos dias seguintes, adequar-me à novidade do seu cantar. Passei a ir ao banheiro, como um homem adestrado. Até que um dia o galo não mais cantou. Eu, por outro lado, ainda não perdi o costume de ir ao banheiro às 4hs da manhã.

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