sexta-feira, 18 de julho de 2008

Somos coniventes?


por Adriana Costa Tourinho



Minha doutrina é esta: se nós vemos coisas erradas ou crueldades, as quais temos o poder de evitar e nada fazemos, nós somos coniventes.
Anna Sewell
[1]


Você come carne de outros animais? Associa a carne que come nas refeições a um animal não-humano que esteve vivo? Tem consciência do processo pelo qual esse animal passou até chegar à prateleira de um supermercado? Você entende que os animais não-humanos têm vidas emocionais, que desejam a vida e lutam por ela? As respostas residem em cada um de nós, a partir de como vemos, percebemos e entendemos as outras espécies e a nossa.

Estamos acostumados a ver as carnes embaladas e esquecidos do processo realizado até que aquela carne chegue à prateleira. Estamos acostumados a não dar importância à vida dos animais não-humanos, como seres vivos e sencientes (do Lat. sentiente, adj. 2 gén., que sente; que tem sensações; sensível.) que são. Tratados como coisas, não passam de meros objetos semoventes disponíveis como mercadoria para o homem. O autor Peter Singer [1], em seu livro “Libertação Animal”, diz que há algo que podemos fazer como “assumir a responsabilidade por nossa própria vida, tornando-a o mais isenta de crueldade que pudermos” (Ed. rev. - Porto Alegre, São Paulo: Lugano, 2004, p. 180).

Comer ou não comer carne é uma opção que pode ser adotada a partir de uma tomada de consciência a cerca da crueldade e matança praticadas contra os animais não-humanos ou pela simples adoção de uma dieta alimentar vegetariana. Em qualquer dessas hipóteses, em prol ou não do bem-estar desses animais, importante ressaltarmos não se tratar de um ato simbólico, mas de um verdadeiro ato eficaz para dar fim à matança e ao sofrimento dos animais não-humanos. “O vegetarianismo é uma forma de boicote”, afirma Singer (p. 183).

Há quem não coadune com a idéia de se tornar vegetariano pelo simples fato de gostar de comer carne, não sendo, dessa forma, contrário a matança desses animais. Será que, ao menos, questionam-se quanto aos métodos intensivos de criação de animais? Será que fazem idéia de como e quais são esses métodos? Obtendo esse tipo de informação, ou em posse já dela, uma vez contra o sofrimento, seriam capazes de se oporem ao abate desnecessário e boicotarem carnes advindas da produção industrial? Se positiva a resposta, um passo importante estaria sendo dado no respeito à vida desses seres, uma vez que o “o objetivo do boicote não é alterar o passado, mas impedir que as condições a que objetamos continuem” (SINGER, p. 185).

Do lat. Respondere significa não só dizer em resposta algo que se lhe tenha sido perguntado, mas “responsabilizar-se por”. Assumindo ou não a responsabilidade do sofrimento e matança dos animais não-humanos, contrários ou não a essa realidade, aptos ou não a ampliar uma ética a todos os animais não-humanos, de uma maneira ou de outra, somos responsáveis pela nossa forma de pensar e agir no mundo. Às respostas intimamente encontradas, que não sejam coniventes a crueldade e/ou matanças, mas inspiradoras a uma mudança de hábito alimentar ou boicote às grandes indústrias.




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